Olhando ao presente, a Rússia já perdeu. Putin está condenado a perder. A Ucrânia chora as suas perdas e resiste. A questão que o futuro se encarregará de dar resposta é se perderemos todos ou não.
Dia 24 de Fevereiro de 2022 ficará registado como o dia em que a Europa acordou para o início da primeira guerra nas suas fronteiras no Século XXI. Foi um dia igual àqueles que recordo de estudar na infância, onde aprendi sobre as atrocidades longínquas, outrora cometidas nas velhas Guerras Mundiais, cujo gradiente cinza das imagens engana o ingénuo espírito das crianças, que crescem num tempo de paz e prosperidade, pensando que aquela história teria sido vivida por outros que nada tinham a ver consigo ou com os seus.
O exército Russo apresentou-se nas fronteiras ucranianas como um dos maiores do mundo, mais de 700.000 soldados, o maior arsenal nuclear do Mundo e um orçamento anual militar apenas superado pelos da China e Estados Unidos.
Dado o contexto económico e social da Rússia se traduzir num estado híper centralizado nos corredores do Kremlin, ineficiente, pensado para favorecer a persistência das forças de poder existentes, alicerçado num esquema de incentivos que anula a competitividade interna, levam a que o exército de Putin seja acompanhado por um PIB de 1.478 Milhões de Euros, valor equiparado ao espanhol, assente na extração de recursos naturais e alicerçado por uma cadeia de valor altamente dependente da importação de tecnologia ocidental.
GDP (current US$) – Spain, Russian Federation, France, Germany, United Kingdom, World Bank national accounts data, and OECD National Accounts data files.
O exército russo combate com o objetivo de defender e reforçar as posições de poder existente
Tal como o contexto económico, as ações militares são desenvolvidas dentro do mesmo contexto, o exército que combate em território ucraniano luta pelos objetivos definidos pelo seu líder, que para todos os efeitos tem como objetivo o de defender e reforçar as posições de poder existente na Rússia.
Na aceção da sua população a Rússia já perdeu, pois as sanções económicas que se fazem sentir no país estão a empobrecer e a prejudicar uma população já de si pobre, que vive numa sociedade muitíssimo desigual e que caminha para um trilho de faltas e privação.
Putin está condenado a perder, ora porque perdeu um dos seus principais trunfos, o mythos da invencibilidade do seu exército, ora porque se deixou trair a si próprio, ofuscado pelo brilho da sua liderança, chegou a um isolamento tal que se apresenta receoso daqueles que o rodeiam, parecendo recear o vazio da sua própria sombra.
A Ucrânia chora as suas perdas, as muitas vidas perdidas em combate, os muitos civis inocentes que foram abatidos na escalada militar e todas as infraestruturas que estão a ser destruídas pelos intensos bombardeamentos. A Ucrânia chora as suas perdas, mas faz delas a uma força e resiste, insiste e cresce sob um novo mythos de uma resistência que se parece querer perpetuar.
Alguém que não tenha nada a perder, pode simplesmente querer que todos os outros percam também
Imaginando as tentações que podem passar pela mente de um condenado, não é descabido pensar que alguém que não tenha nada a perder possa simplesmente querer que todos os outros percam também. Por isso, só o futuro conseguirá responder à questão: No fim perderemos todos, ou não?
Outras notícias de interesse:
Russia Is Too Small to Win – Project Syndicate
The world’s 20 strongest militaries – Business Insider
Featured image credit: Revista Time Março 2022

Um pensamento em “Guerra da Ucrânia, perderemos todos ou não?”